Quem está com a razão?

Carlos Juliano Barros comenta os sentimentos contraditórios da surfistada em relação à piscina de ondas do mestre Kelly Slater

por Carlos Juliano Barros, 03/05/2018
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Dias atrás, um amigo soul-surfer me contou que uma das etapas do Circuito Mundial deste ano será disputada em uma piscina artificial com ondas perfeitas idealizada e construída por Kelly Slater, o maior nome da história do esporte.

A tal piscina gerou uma avalanche de sentimentos contraditórios que colocou em pólos opostos o arremedo de esportista e o chato de galochas que habitam a minha pessoa.

Com ondas previsivelmente perfeitas, em que tubos e quedas dágua podem ser milimetricamente estudadas, a performance dos surfistas certamente vai alcançar níveis jamais vistos.

Enfim, os atletas - de alto rendimento, sobretudo - vão poder treinar ininterruptamente. Tentativa e erro até a manobra perfeita. Quem gosta de esporte se encanta sinceramente com essa potencialidade toda.

Mas a piscina, como nem poderia deixar de ser, também é business. É claro que surfistas amadores do mundo todo vão querer viver a experiência de brincar de Kelly Slater pelo tempo de um pacote de turismo.

Certamente, outras piscinas semelhantes vão ser construídas mundo afora. O que vai gerar empregos, movimentar a economia, popularizar o acesso ao esporte, etc e tal.

Tem que ser um chato de galochas mesmo para ver algum problema nessa ideia tão maravilhosa, né?

Mas o que diferencia a qualidade de um surfista não é justamente a sua capacidade de ler o comportamento do mar? Entender onde, como e quando a onda vai quebrar? O bom surfista não é aquele que tira leite de pedra, ou seja, extrai manobras incríveis de ondas irregulares e imprevisíveis?

A piscina artificial elimina todo o risco embutido no surf. Acaba com o fator sorte. Reseta o jogo e coloca todos no mesmo nível. E tudo isso, claro, pasteuriza vivências. É a Disneylândia do surf, o esporte até então mais imune às armadilhas da reprodução artificial.

Quem está com a razão? O arremedo de esportista ou o chato de galochas?

Carlos Juliano Barros tem 35 anos, é jornalista e mestre em Geografia Humana pela USP. Fundador da ONG Repórter Brasil, roteirista e diretor premiado internacionalmente, colabora para diferentes publicações como RollingStone, Trip e GQ.