Damian Fulton retrata apocalipse do surf

Em entrevista exclusiva, artista americano fala de seu trabalho e de sua praia frequentada por monstros do espaço e outras aberrações

por Alceu Toledo Junior, 20/04/2018
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Monstros do espaço, surfistas mutantes, mulheres armadas e ameaçadoras, ondas perfeitas e cenário de guerra.

Neste mundo de caos, subversão e uma criatividade sem limites, o artista americano Damian Fulton desenha o ambiente perfeito que nos remete aos filmes de terror e a um underground pulsante, onde os surfistas locais exibem hostilidade gritante e nem a areia da praia é amigável, com um lineup de referências imprevistas que vão do artista renascentista Michelangelo ao cineasta Francis Ford Coppola, autor de Apocalypse Now, filme que revela a história dos soldados-surfistas durante a guerra do Vietnam.

Tudo na vida do artista-surfista começa na Califórnia, paraíso do surf moderno, berço da cultura e da falta de cultura do esporte, com todo aquele lifestyle moldado nas ondas e no american wave of life, enquanto desafiava libertariamente o tráfego de Orange County com sua bicicleta entre as gangues de mexicanos.

“Havia uma boa vibe e era na praia que se reuniam os hot hodders, bikers e hippies, além dos surfistas, os caras que arrumavam as melhores garotas!”, diverte o texto publicado no site oficial de Damian Fulton.

Depois de deixar pra trás um curso entendiante de arte na California State University Fullerton, ele mudou para Newport Beach, onde se graduou. A partir daí os trabalhos multiplicaram.

Criou posters para diversos eventos do surf, fez tiras para as revistas especializadas e também teve uma passagem relevante para licenciados da Disney, trabalhando com velhos artistas da casa na criação de animações feitas à mão. Surgiram novos horizontes, com trampo na Marvel, mas ele estava maduro o bastante para evoluir a própria arte, um mix da "urbanização intensa combinada à liberdade da praia e do surf˜, descreve. 

As influências são diversas e incluem, fora de ordem, “Norman Rockwell, Mad Magazine, Batman, N.C. Wyeth, L.A. gestalt, Ed Roth, carros americanos e Jesus Cristo”.

Confira a seguir alguns momentos da entrevista exclusiva ao portal Almasurf. Ele deixou algumas perguntas sem resposta. Mas, quem se importa?

No Brasil sonhamos com o ambiente do surf na Califórnia. Mas, na tua visão o surf tem um cenário caótico. Em vez de um lugar perfeito e de sonho para uma surf trip, encontramos uma praia de pesadelos, cheia de surfistas-trogloditas e monstros do espaço. Você pode nos descrever os contrastes absolutamente incríveis de sua obra?

Antes, quero dizer como é legal ser convidado para te dar uma entrevista!

De volta à sua pergunta, vendo de fora, baseado em revistas e nos filmes de surf, morar na Califórnia é um sonho. Mas, para nós, locais da região de Los Angeles, não é tão sonhador.

É muito mais superficial e complicado.

Hoje nós vivemos a era do heavy metal e aquele doce mundo dos Beach Boys, bem como todo aquele glamour do surf na Califórnia, está morto no passado. Sua arte aponta para o futuro do surf, quando as praias se transformam em territórios de guerra?

Acho que o futuro é agora, no caso de você remar numa área congestionada como Malibu, El Porto ou Newport durante um final de semana.

Mas sempre haverá lugares isolados do crowd enlouquecido. Não estou prevendo como o surf vai estar daqui a cinco, 10, 20 anos. Estou simplesmente amplificando a minha própria experiência.

O Frankenstein Surfer é um personagem emblemático desses novos tempos de localismo selvagem, violência urbana e estilo de vida descartável?

Interessante.

As pessoas interpretam minha arte de várias maneiras. Para mim, um banido gigantesco, cheio de cicatrizes se encaixa bem nisso.


A praia na Califórnia é tão sinistra quanto os detalhes de sua arte, ou sua imaginação vai além de todas as distorções da realidade?

Coloque a culpe na minha imaginação.

Na medida em que não há mundo mágico do surf em sua arte, mas um mix iconográfico que desafia a complexidade, diga como realmente se sente quando pega uma boa onda.

Surfar muitas vezes é um jogo de espera e de paciência.

Alguns dias eu vou ficar totalmente irritado por uma série de razões. Podem ser as condições ruins, o crowd, minha falta de vigor, o que for.

Então, quando uma onda surpresa me tira do meio do crowd e chega como se fosse servida por Deus numa bandeja só para mim, isso se torna mágico quando o drop e o passeio pela onda acontecem em perfeita harmonia.

No lugar dos Kahunas dos velhos tempos do espírito aloha, os teus surfistas são vilões da praia, seres mutantes e sereias demoníacas. Quanto tempo você trabalha para construir uma imagem complexa, irônica e surreal?

Na verdade, estou apenas pintando as lembranças favoritas da minha infância, assistindo filmes de monstros e me impressionando com seu poder intenso (se você é um garotinho que é mandado por todo mundo, aqueles monstros antigos da Universal eram heroicos, pois ninguém mandava neles), pilotando motos em terrenos cheios de sujeira, andando de bicicleta até a praia e lendo histórias em quadrinhos malucas.

Eu nunca teria acreditado em como eles se encaixam no litoral do sul da Califórnia.

Li que os teus filhos ajudam no preparo de sua arte. O que eles acham dos resultados?

Meus filhos apareceram em muitas pinturas. Às vezes eu os coloco em posições ridículas, para simular surfistas em queda ou em brigas.

Não uso as poses somente para referência, eu noto a presença deles sempre que olho para as pinturas!

Também li um tutorial de suas pinturas, incrível em todos os seus detalhes. Como você se sente em fazer com que todas as pessoas que gostam de surf art se sintam completamente felizes com suas cores surreais?

Feliz por saber que algumas pessoas compartilham a mesma alegria que tenho quando termino uma imagem.

Qual é seu super-herói favorito?

Costumava ser o Batman, mas recentemente eu tenho acompanhado o Shazam! Tem um filme saindo, eu tenho que ver!

E quais os teus gênios prediletos do comix americano clássico?

Rick Griffin, Jack Davis, Zap comics, Jack Kirby.

Nazi Surfers Must Die foi um trash movie de 1987 e, curiosamente, sinaliza para o teu cenário de surf. Você já viu essa tranqueira de Hollywood?

Ouvi falar do filme, mas nunca tive tempo para assistir.

Você gostaria de expor no Brasil?

Sim! Eu viajo bem.

Conhece surf art produzida no Brasil?

Só o que vejo na web e blogs. Conheço Tom Veiga do Club of The Waves.

E o que você pode dizer sobre o mercado americano da arte do surf?

Não sigo. Estou pintando apenas a minha própria visão.

Damian, obrigado pela entrevista. Foi uma honra falar com você!

A honra foi toda minha, amigo. “Adios”.

Abaixo, as perguntas sem resposta.

Outrora um paraíso no mundo aloha, como no filme Endless Summer, as praias de hoje parecem uma zona de batalhas militarizadas, onde os surfistas têm muito mais músculos do que prazer. O hedonismo do surf está dando lugar à violência?

Como foi o seu trabalho na Marvel e Disney?

Que tipo de som te inspira a criar ondas grandes de loucura?

Você aprecia a surf arte que vemos na indústria do surf?

Você é convidado para criar coleções de surfwear?

Clique aqui para acessar o site Damian Fulton

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