Mutirão retira mais de 50 mil itens das praias da Jureia

Mosaico de Unidades de Conservação recebe maior operação de limpeza do país.

por João Malavolta, 02/10/2017
follow

No mês passado, uma operação de combate a poluição nas praias da Estação Ecológica da Jureia-Itatins (EEIJ) chamou a atenção das comunidades caiçaras que vivem no litoral sul paulista.

A ação desenvolvida pelo Instituto Ecosurf em parceria com a Fundação Florestal, apelidada de "Operação Jureia-Lixo Zero", reuniu pesquisadores e voluntários para aquele que seria o maior esforço de uma organização da sociedade civil para limpeza de praia em uma Unidade de Conservação.

Localizada a 160 quilômetros da capital e situada entre os municípios de Iguape, Miracatu, Itariri e Peruíbe, a Estação Ecológica de Jureia-Itatins (EEJI) é uma UC de proteção integral que tem como objetivos principais a preservação da natureza e realização de pesquisas científicas.

O território é banhado por rios que são formados nas serras e morros da estação e que dominam grande parte da planície costeira. As principais bacias formadas são a do Rio Verde, do Una do Prelado e do Guaraú. Quanto às praias, a maioria se apresenta abrigada entre formações rochosas, enquanto outras ocupam longas extensões e possuem areias finas.

Durante sete dias uma equipe de 30 pessoas, composta por técnicos e profissionais da área ambiental, moradores de comunidades caiçaras e ativistas, percorreram 21 quilômetros de praias, entre a região do Rio Verde, Itacolomi, Grajaúna e Praia do Una, realizando a despoluição do ambiente costeiro e pesquisando a deposição de resíduos sólidos na faixa de areia e baixa restinga. O trabalho desenvolvido procurou identificar as características e tipos de resíduos, composição e quantidade do chamado "lixo marinho" encontrado no lugar.

Para o gestor do Parque Estadual do Itinguçu que é uma das Unidades de Conservação do Mosaico da Jureia-Itatins, Otto Hartung, a limpeza de praia foi extremamente importante pela grande quantidade de resíduos retirados.

"Essa ação para a Estação Ecológica foi primordial. O litoral do mosaico recebe muitos resíduos trazidos pela maré durante o ano e isso ao longo do tempo vem causando impactos nos ecossistemas da região. O plástico chega como um resíduo macro e através das intempéries, do sal e radiação solar se fragmenta em partículas menores formando uma mistura com a areia da praia. Tudo isso é muito preocupante devido aos danos que causam na microfauna".

PLÁSTICO O INIMIGO NÚMERO UM DAS PRAIAS

Com uma média de oito horas de operação de campo por dia e utilizando sacos de 100 litros para a recolha do material nas areias e vegetação, a equipe totalizou 519 sacos cheios o que inteirou após a triagem dos resíduos o montante de 53.099 mil itens retirados do ambiente.

Do total encontrado nas praias a maior presença foi de garrafas PET, com 12.214 unidades contabilizadas pelos pesquisadores. Já pedaços de plástico diversos ocuparam a segunda posição com 9.558 fragmentos.

A presença de chinelos, com 1.249 unidades e petrechos de pesca (pedaços de corda, restos de rede, boias, entre outros) com 2.403 unidades, somam mais de 3.600 itens.

Entre os chamados resíduos "curiosos" foram encontrados quatro para-choques de automóveis e um capacete de moto.

De acordo com a coordenadora da pesquisa e gestão dos resíduos sólidos da operação, a bióloga do Instituto Ecosurf, Amanda Suita de Moraes, os resultados do trabalho demonstraram que praias remotas são verdadeiros depósitos de plástico.

"Foram mais de 60 horas de ação e o resultado foi assustador quando observado a quantidade de itens triados. São mais de 50 mil unidades, entre termoplástico em sua maioria, vidro, metal, entre outros, que agora não estão mais gerando poluição no frágil ambiente praial".

Após a triagem em campo e separados por tipo de resíduo, todo o montante foi levado de trator e barco para a vila da Barra do Una onde um caminhão transportou todos os sacos para uma cooperativa de reciclagem na cidade de Itanhaém.

Com os dados técnicos gerados pela "Operação Jureia-Lixo Zero" foi possível identificar os principais materiais trazidos pelas correntes marítimas naquela área isolada.

Segundo o pesquisador do Instituto, João Malavolta, que desde 2014 vem estudando a distribuição de plásticos nas praias do litoral sul, a situação é preocupante se observado que não há nenhuma política pública que vise articular ações para enfrentar esse problema.

"Tiramos dessas praias cerca de 12 mil garrafas PET. Na média uma garra de dois litros tem aproximadamente 35 centímetros. Se colocarmos uma garrafa em cima da outra alcançamos mais de 4 mil metros, o que equivale a um prédio com cerca de 1.300 andares. Essa informação serve para ilustrar o montante encontrado e a dimensão do problema, se levamos em consideração que o plástico não é biodegradável".

Ainda para Malavolta só é possível frear o avanço da poluição nas praias e oceanos banindo o plástico de uso único do dia-a-dia das pessoas.

"É preciso cobrar com leis mais firmes a empresas para que assumam suas responsabilidades com os resíduos gerados a partir dos seus produtos, criação de um fundo privado para despoluir os oceanos e investimentos robustos em educação ambiental para o consumo consciente", afirma.

Todas as informações geradas com o projeto vão servir de subsídio para a Base Nacional de Dados sobre Lixo Marinho que está sendo desenvolvida pelo Instituto Ecosurf em parceria com outras organizações e universidades.​​​​

A Operação Jureia Lixo-Zero foi realizada pelo Instituto Ecosurf e Fundação Florestal e é parte das ações de recuperação ambiental promovidas pela Log-In Logística Intermodal, referente ao acidente com contêineres no Porto de Santos ocorrido no mês de agosto.

 

almasurfalmasurfalmasurfalmasurf