O vacilo de Medina

Carioca Pedro Maurity comenta a bateria final do Billabong Tahiti Pro envolvendo Gabriel Medina e Julian Wilson, vencida pelo australiano numa virada nos últimos minutos.

por Pedro Maurity, 17/08/2017
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Com o passar dos anos, conforme o surf foi se transformando de mera diversão em um esporte – agora, olímpico –, muitas mudanças comportamentais entre os competidores e surfistas vieram à tona. A brincadeira virou coisa séria.

Primeiro, vieram os admiradores do esporte, em seguida, os empresários aventureiros – em sua maioria surfistas mesmo – arriscando o pouco patrimônio que tinham, até que, finalmente, depois de muitas ondas na cabeça, chegaram as grandes multinacionais e a televisão.

Hoje, temos um Tour com patrocinadores caríssimos e transmissão ao vivo, via internet e TV a cabo, algo inimaginável há 20 anos atrás, tempos em que a internet e o circuito ainda davam seus primeiros passos, embora na época já parecesse algo enorme, em comparação às décadas anteriores.

Evidentemente, com a transmissão em alto nível e a propaganda, o número de fãs e praticantes do esporte triplicou no Brasil e, com a ajuda das redes sociais, o surf competição caiu na boca do povo e virou assunto.

O dia seguinte de uma final de etapa no Tour está parecendo até aquelas segundas-feiras, depois de rodada importante no futebol. É quem pegou melhor pra cá, erro de arbitragem pra lá, equívocos da direção da prova acolá, e tudo mais.

Pois é, o surf não conseguiu escapar desse senso crítico que o mundo moderno nos impõe. Não combina, mas não escapou.

E, em relação aos competidores, sobretudo, as mudanças comportamentais e estruturais estão em franca ascensão. É técnico, estratégia, marcação cerrada, remada bloqueando o adversário, tudo dentro da “regra”. Regras.... Isso aí é outra coisa que surfista antigamente não gostava muito não.

Enfim, após o término da bateria final no Tahiti, disputada por dois fenômenos do surf, Gabriel Medina e Julian Wilson, em ondas um pouco menores do que a expectativa da maioria, o australiano sagrou-se campeão com duas notas altas, em ondas muito bem surfadas, somando impressionantes 18.96.

Nas redes sociais, li muitos posts com a galera escrevendo que Medina vacilou daqui, errou de estratégia dali, aqueles comentários clássicos de quem está de cabeça quente com a derrota e, sobretudo, gosta de chorar a ira sentado em frente ao computador.

O problema é que no surf, diferentemente do tênis e do boxe, cada atleta tem que fazer a sua somatória sozinho e não tem como interferir diretamente no desempenho do adversário, ou seja, a briga é muito mais contra os seus próprios limites do que contra o outro competidor.

E é exatamente por isso que se o Medina – o melhor surfista do mundo, na minha opinião (os fãs do JJF que me desculpem) – cometeu algum vacilo, naquela final, foi o de não ter conseguido notas ainda mais altas, o que francamente é difícil considerar um vacilo, ao meu ver, levando em consideração que 17.87 é uma ótima somatória.

Por isso, meus amigos, quando um surfista escolhe as ondas certas e surfa com maestria, não há estratégia do adversário que evite um notão.

Nem sempre a derrota advém de um vacilo. O nível dos top 10, hoje em dia, é muito alto e parecido. Mas, perder no finalzinho dói mais, é fato. De virada então...

De resto, embora esta etapa tenha terminado de forma melancólica para a torcida brasileira, Gabriel Medina voltou a apresentar um surf de campeão mundial, o que é animador, e certamente chegará com tudo pra Califórnia, juntamente com Filipinho, Mineiro e o resto da trupe.

Pedro Maurity é surfista, skatista e sócio do escritório Evaristo de Moraes

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