Do underground ao mainstream

A equipe da Almasurf marcou presença no OFF Conecta e entrevistou Taylor Steele, aclamado diretor do filme Momentum

por Vittorio Andreatta, 13/11/2019
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A equipe da Almasurf marcou presença na semana passada no OFF Conecta, evento inédito do canal de TV por assinatura que reuniu atletas, produtores, jornalistas e entusiastas em um espaço muito maneiro na capital paulista.

A programação incluiu uma exibição do longa-metragem Momentum Generation, seguido de um debate com a presença do aclamado diretor Taylor Steele.

Produzido pelos irmãos Zimbalist e pela lenda Robert Redford, o filme conta a história de uma geração ímpar, que tinha Kelly Slater como protagonista e que mudou a opinião do mundo inteiro sobre os surfistas e o surf.

Na real, esse é um um filme que conta não apenas a história da geração Momentum, mas também de um filme. Já que o “Momentum original”, dirigido por Steele no começo dos anos 1990, foi o marco zero dessa revolução na imagem e na reputação da modalidade.

Para nós na Almasurf e para toda a comunidade do surf brasileiro Steele é uma referência e, claro, a gente não podia deixar passar a oportunidade de trocar uma ideia com ele.

AS Seus filmes e a geração “Momentum” fizeram o surf ser visto em outra perspectiva pela sociedade. Quando você menciona o Kelly como sendo uma “chave” para o sucesso, acho que se relaciona com o fato de ver um cara que ganhou tudo e ainda se manteve centrado. Antes disso, o surf era visto como um lance de “vida-mansa-não-trabalha”. Vocês deram mais credibilidade para o surf, você concorda com isso?

TS Sim, isso teve uma grande importância para mim e eu sei que teve também para o Kelly. Sabe, quando éramos moleques, “surfista” era uma palavra pejorativa e o surf não era uma coisa bem-vista. Muitas pessoas achavam que os surfistas eram perdedores. Enquanto eu produzia os filmes, sabia que garotos de 14 anos iriam assistir. E eu não queria mostrar as bebidas, as festas e coisas do tipo. Nós éramos jovens e é claro que íamos às baladas e coisa e tal, mas eu não queria mostrar essa parte da história como algo legal. O lance era apresentar o movimento como algo legítimo.

AS Então você pensava sobre isso? Era uma postura consciente?

TS Mesmo com 17 anos, estava preocupado com garotos de 14 pensando coisas erradas sobre o “sucesso”. Não sei porquê eu pensava assim há 30 anos, meu eu pensava.

AS Você vê semelhanças entre as gerações Brazilian Storm e Momentum?

TS Sim, eu acho as duas muito parecidas. Ambas carregam um orgulho nacional. Sabe, de vir e mudar o que o surf era antes? Talvez, para os americanos era dizer “não somos chapados, nem perdedores”. Mas para os brasileiros é outra coisa. Mostra um lado diferente, tipo: agora nós somos os melhores surfistas, com o estilo mais maneiro, com os aéreos mais sinistros. Talvez seja sobre essa “performance” em geral e não só sobre competição. Acho que existe um grande lance nessa de incorporar esse orgulho. No fim eu sempre penso: caralho, alguém precisava fazer um filme no estilo Momentum com essa galera. Mas a real é que hoje em dia não são mais os filmes que influenciam os jovens.

AS Eu diria que é uma missão mais difícil hoje em dia. Traduzir tudo isso com uma linguagem, de uma maneira que realmente comunique a mensagem...

TS Vivemos em um mundo diferente. Quando éramos mais novos não tínhamos dinheiro. Então a gente tinha que viajar e experimentar as paradas juntos, na raça. Atualmente, todos têm uma boa estrutura, técnicos, seus respectivos times. É muito mais profissional e não permite que as pessoas sejam tão próximas, não daquela maneira dos anos 1990.

AS É mais difícil hoje em dia mesmo. Se existisse um “novo Taylor Steele” na cena, eu diria que ele teria mais dificuldade, não por não conseguir deixá-los juntos, mas para traduzir toda essa mensagem com uma narrativa que cativasse a atenção das pessoas.

TS Eu acho que eu conseguiria fazer (risos). Eu não tenho tempo agora, mas eu acho que se isso for a paixão de alguém, é possível. Se alguém quer fazê-lo, a receita é essa: faça com um dos três melhores. Você filma uma sessão do Filipe quebrando e mostra para o Medina e usa essa competição saudável para melhorar o nível de todo mundo. Eu acho que existe um jeito de fazer isso. Se você ama e se preocupa com o movimento, existe um jeito. Eu amava e me preocupava e por isso deu certo.

AS Você sabia que seus filmes são muito famosos aqui no Brasil?

TS Eu vim ao Brasil há 15 anos só para um “drive-thru”. Passei 24 horas gravando e fui para o Chile. Naquela oportunidade, não falei com muitas pessoas. Voltei neste ano para o campeonato de Saquarema e estava uma bagunça. Além disso, eu estava com o Kelly e quando qualquer um via o Kelly, eles falavam com ele, não comigo. Dessa vez eu vim sozinho e toda noite vem alguém falar sobre meus filmes. Agora consegui entender o efeito. É divertido, confesso. Eu sempre fiz tudo pensando nos meus amigos e fico feliz de ter influenciado toda essa galera. Estou orgulhoso.

AS O mundo do surf mudou muito. Você sente que está faltando algo? O que seria? Se você acha que perdemos algo, o que você diria que foi?

TS Gostei dessa pergunta. Não concordo com esse lance de “está faltando algo”. E não concordo porque eu acho muito complicado explicar o que é o surf para alguém que não surfa. Não dá para traduzir tudo. Se você tenta traduzir “homem vs natureza” ou “homem vs competição”, isso no fim não é “surf”. O surf para mim é quando você rema para o outside, dá um joelhinho numa espuma e seu dia começa a desaparecer. Você rema mais um pouco e você dá outro joelhinho e seu dia vai sumindo. Daí você espera uma onda, você senta lá por dez minutos. A água é calma, a onda vem e chega de meditação. Você vira e se torna agressivo. Você dropa a onda e vai embora. Você dança com a onda, você vai, flui com a onda e faz o máximo que você consegue. Você dá seu melhor para fluir com a onda. Quando você sai, ou ela acaba, você esquece tudo. E você rema de volta para o outside tentando lembrar como foi, mas simplesmente não consegue. Você volta para passar a arrebentação mais uma vez para fazer tudo de novo, para tentar reviver aquele sentimento. E isso é uma metáfora para a vida. Minha filha começou a surfar e ela sempre chega das sessões muito animada dizendo o quanto é legal. E eu sempre digo para ela o que eu disse para você agora. Quando pensamos sobre isso, a natureza cria essa energia e nós dropamos as ondas. E mesmo que essa energia fique na beira da praia, a gente consegue capturar muito dela. E então levamos essa energia para o nosso dia a dia. Esse é o verdadeiro espírito do surf.