Surf é alimento da alma, vitamina do espírito

Escrito pelo músico Gabriel O Pensador, artigo foi orginalmente publicado em 2002, na edição 13 da Revista Almasurf

por Gabriel O Pensador, 09/10/2019
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Descendo do morro, sorriso no rosto 
A prancha no braço, a pressa no passo
Queimando descalço no sol carioca
Pisando no asfalto, driblando o cansaço

Se benze na água e sente seu gosto
Conversa com as ondas e busca um espaço
Sortudo, descobre um buraco e se entoca
No tubo, recebe de Deus um abraço

No grito abafado que sai do canudo
Mantendo o equilíbrio e pisando tudo
Na prancha barata quebrada no bico
Nascendo e vibrando se sente o mais rico

Surfista do morro, saindo do mar
Voltando pra casa, saindo do lar
Andando nos becos, subindo a escada
De cabelos secos e alma lavada

Este poema foi escrito após uma das minhas sessões de surfe em São Conrado, no chamado Cantão, onde sempre se pode apreciar alguns locais da Rocinha arrepiando nas ondas com estilo e alegria. A benção oferecida pela natureza, em forma de swell, vento, onda, tubo..., é um presente insubstituível, de uma riqueza incalculável, para quem tem o privilégio de conhecer o gostinho de deslizar sobre uma massa líquida em movimento em cima de prancha. E não é necessário ir até o outro lado do planeta para receber essa água benta salgada e poder desfrutar dos seus mais do que benéficos efeitos.

Das coisas que o surfe me ensinou e me deu desde o primeiro dia em que dropei uma marola, a maior parte me foi entregue a domicílio, ou a pouquíssimos quilômetros de casa. Entre esses bens adquiridos e constantemente renovados através do meu contato com o mar e com o esporte, posso destacar como mais nítidos e objetivos aqueles dois que talvez sejam também os mais valiosos e especiais: a amizade e a humildade.

A humildade nos pode ser lapidada pelas águas de várias maneiras, mas o caldo com certeza é uma das mais persuasivas. O mar não nos deixa esquecer o quanto nós somos pequenos e frágeis, e a cada boa sacudida que uma de suas incontáveis ondinhas nos dá lá no fundo, mais forte é a nossa certeza de que o mundo e a natureza são muito maiores do que o nosso umbigo e infinitamente superiores a nós. Que não nos pertencem, mas nos abrigam generosamente como seus hóspedes. Que devemos respeitá-los e reverenciá-los. Que devemos ser gratos à vida e à saúde e valorizá-las. Que somos mortais, passageiros. Que cada inspiração de oxigênio é uma dádiva divina e tem a importância de um maravilhoso milagre. “Principalmente a próxima, quando eu sair desse caldo e conseguir voltar à superfície!”

Quantas vezes eu já não saí de uma vaca horrorosa gritando como se saísse de um tubo? É só uma forma de comemorar e agradecer, por ter escapado com sucesso das quilhas, do bico, do lip, da espuma, do fundo ­ de areia, de pedra ou de coral... Eu poderia tecer aqui outros tantos comentários sobre o que eu julgo ser possível tirarmos do surfe como lição de humildade, mas vou citar apenas mais um fato, que é o de que atrás da linha de arrebentação, ou exatamente embaixo de onde vai quebrar aquela série inesperada, todo mundo tem direito ao mesmo tratamento, democrático, imparcial, dispensado a cada um pelo próprio oceano e pelos outros surfistas na água.

Não interessa se você está num hotel cinco estrelas em frente ao pico, num barco fretado com amigos, num barraco improvisado no meio do mato ou numa cabana na areia da praia. Não importa se você vem de um país (ou bairro) rico ou de um subdesenvolvido e miserável, nem se você fala dez línguas diferentes ou é semi-analfabeto. Nada disso faz diferença na hora em que você tá remando pra descer aquela onda que veio especialmente pra você, como se trouxesse o seu nome pendurado na parede, ou aquela boa que você foi buscar no meio do crowd, disputando com todos de igual pra igual (localismos exagerados à parte), ignorando nesse instante todas as outras informações na sua mente que não digam respeito a alguns desses itens: drop, cavada, batida, floater, rasgada, tubo, cut back, não necessariamente nessa ordem.

Exercício de desprendimento, aprendizado sociocultural, aula prática de convivência, evolução espiritual...? Sejam lá quais forem as funções que o surfe desempenha na nossa vida, a verdade é que dificilmente paramos para realmente refletir sobre elas e sobre seus significados, talvez um pouco pela falta de tempo, a velha desculpa de sempre para disfarçarmos nossa preguiça de pensar sobre nós mesmos.

Confesso que até eu, que gosto tanto de pensar quanto de surfar, senti uma certa preguiça de parar para escrever sobre a minha viagem de férias, apesar de ter escrito bastante no barco (uma música sobre como as vidas de pessoas de culturas distintas podem ser tão iguais e um começo de uma estória para um livro infantil, inspirada na saudade entre um pai e um filho). Não estava animado para fazer um simples relato de como foi o nosso dia a dia de surfe.

Mas agora, no longo vôo de volta, refletindo sobre esses doze dias que passamos isolados no mar, exilados do nosso mundinho e das nossas rotinas, afastados do trabalho, da família e das boas e más notícias, na medida do possível notei que, se por um lado nós fomos atrás de novidade, aventura, adrenalina e ondas praticamente desconhecidas, parece inegável que viajamos quase trinta horas de avião, e mais umas trinta de barco, numa rota inconsciente em que navegávamos exatamente em busca de nós mesmos.

E por mais paradoxal que isso possa ser, de repente eu me encontro na famosa direita de Nias, num dia de qualidade e tamanho, dividindo o pico com a molecada local, dando risada com eles, admirando o seu surfe malandro e babando com as manobras extraordinárias de suas pranchas velhas e cheias de cicatrizes, e me sinto como se estivesse no Cantão de São Conrado, uma semana antes ou mais de quinze anos atrás.

A vibração era a mesma, a essência era a mesma, e se eu parasse pra escrever um poema inspirado na minha sensação do momento, não seria pra falar da perfeição daquela onda, nem dos coqueiros que compunham o cenário; sairia quase igual ao que escrevi sobre o surfista do morro, mas que na verdade também fala sobre o surfista do vilarejo de Lagundri Bay, e igualmente, de certa forma, sobre os surfistas de qualquer lugar.

É o surfe alimentando a nossa alma de uma maneira tão intensa e abrangente que é impossível compreender racionalmente ou tentar explicar.

Vitamina pro espírito... Amizade... Quantas amizades a vida já me trouxe a partir dessa velha mania de querer pegar onda! Chegar num lugar novo, procurar um local, perguntar se dá onda, quando dá, como é, como foi, como pode ficar. Papo vem, papo vai, e muitas vezes esses papos se desenrolam até mostrar que o surfe é apenas a afinidade mais gritante entre dois ou mais desconhecidos, que de simples companheiros de uma única surfada podem vir a ser verdadeiros amigos, ou pelo menos companheiros de outras surfadas.

Esse tipo de viagem que fizemos agora tem tudo para criar ou fortalecer laços de amizade entre pessoas diferentes unidas temporariamente por um objetivo comum. Nessa barca tinha gente que já se conhecia havia muitos anos e gente que nunca tinha se visto na vida. A tripulação também trouxe caras novas, mesmo pra quem já tinha estado nesse barco, mas no final o entrosamento era total, depois de termos pego alguns dias de altas ondas só pra gente, em picos que não têm nem nome ainda, e que provavelmente vão permanecer um bom tempo em relativo anonimato.

Para chegar neles, fizemos a opção arriscada de trocar o quase certo pelo duvidoso, por exemplo ao deixarmos um pico que estava perfeito para irmos atrás de outro que nem o capitão do barco conhecia, mas ouviu dizer que “parecia Jeffrey’s Bay com água quente”. Ele também pega onda e estava amarradão na idéia de explorar novas bancadas. Nem todas as apostas deram certo, mas tivemos muita sorte do início até o fim da viagem, tirando a quantidade de pranchas quebradas (e uma desaparecida na corrente).

Mas isso foi o de menos pra quem se embrenhou pela Indonésia adentro, passeando pelos canais e pelo mar aberto como quem abre novas trilhas no meio do mato. O clima estava tão relax que num dia em que peguei uma onda transparente e vi um tubarão de reef nadando na parede, do meu lado, ninguém se preocupou (além de mim), e até o Beto continuou tirando fotos dentro d’água, no mesmo lugar onde o bicho apareceu.

Depois do último dia de surfe, estávamos fazendo a travessia de volta e comentando justamente sobre a sorte que tivemos, com swell generoso e constante e sem nenhuma contusão sérias. Todos estavam felizes, constatando que tinha valido a pena o esforço de abrir um espaço na agenda, investir uma grana que mesmo antes das últimas altas do dólar já pesava no orçamento, se afastar da família (em muitos casos esposas e/ou filhos) e ir atrás do eterno sonho de todo surfista: as ondas perfeitas.

Mas se não tivemos flat em nenhum dia, também fomos obrigados a cruzar as conhecidas tempestades da região, com dois dos quatro motores do barco quebrados e o radar totalmente apagado. A pior foi na última madrugada, voltando pro porto, com muito vento e um show de relâmpagos em cima de nós e por todos os lados; mar aberto, nem uma ponta de terra à vista, navegando só na base do GPS e do senso de direção do capitão.

Estava chacoalhando demais e ninguém conseguia dormir, quando o João saiu da cabine para ir ao banheiro justamente na hora em que alguém deu um grito lá na popa, abafado pelo barulho dos motores. O capitão também ouviu, e os dois ainda demoraram um pouco para perceber que tinha acontecido o que todos temiam na hora de esvaziar a bexiga com o barco em movimento: uma pessoa tinha caído no mar.

O grito tinha sido do velho indonésio Bapá (pronuncia-se assim e significa pai), no exato momento em que caía, num vacilo que não ficou completamente esclarecido, principalmente pela sua experiência. Ele era o faz-tudo do barco, desde os consertos das pranchas ou dos motores até umas massagens em quem estava muito mal de tanto remar. Ao notar sua falta, o capitão parou o barco bruscamente, e foi aí que todos subimos correndo pra receber a notícia mais do que sinistra, em meio a uma confusão infernal.

A tripulação agitada com cara de pânico, nós todos chocados, atônitos, e os minutos passando. A cada relâmpago (e eram muitos), o mar se iluminava e tentávamos enxergar o coroa, torcendo para que ele ainda estivesse nadando ou boiando, e dentro do nosso limitado campo de visão. Não sabíamos mais pra que lado olhar, enquanto o capitão fazia uma manobra dificílima, tentando achar o ponto em que o Bapá tinha caído do barco, só no GPS, mas com muita intuição. Começamos a gritar: “Bapá?!”. Esperávamos um instante e gritávamos de novo.

Estava tudo escuro e havia umas duas ou três lanternas jogando seus fachos desesperados no vazio, até que um dos chamados obteve resposta! Não foi uma palavra, mas era a voz do coroa, que estava afastado de nós, mas conseguiu forças pra gritar e foi logo iluminado pelas lanternas, para que o barco tentasse chegar um pouco mais perto, o que poderia demorar alguns minutos decisivos. Percebi que ele estava começando a se afogar e gritei pro Bocão pular logo com uma prancha, a única que vi ainda fora das capas.

Ele pulou e remou até o pesado Bapá, que já estava engolindo água e deu trabalho para ser apoiado de barriga pra cima na prancha. Bocão pediu ajuda e pulei no mar também. Aí só tivemos que trazê-lo até a escada e deixá-lo na mão do Neto, nosso médico-surfista, que ficou preocupado com sua temperatura corporal e com a água no pulmão, mas viu que ele sobreviveria e que o inacreditável tinha acontecido: o grito na hora da queda foi ouvido, o velhinho passou mais de quinze minutos na água em mar aberto, o barco voltou ao lugar certo no escuro e conseguimos avistá-lo e resgatá-lo com vida.

Foi só mais uma prova de que a sorte nos acompanhara do início ao fim da nossa expedição. E mais um lembrete do mar, para que não nos esqueçamos do quanto nós somos pequenos e frágeis. E uma frase que sempre dizíamos em tom de brincadeira, ao nos depararmos com ondas alucinantes, agora ressoava solene na mente de todos em volta do Bapá. E na dele mais ainda, com certeza, do seu jeito e na sua língua, mas a mesma: “Obrigado, Senhor”.

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