Mirem-se no exemplo da Suellen Nobrega

Paulista é pura inspiração e fecha a Minas Ao Mar, série de entrevistas da Almasurf que veio para apresentar as fotógrafas mulheres de surf

por Lucas Conejero, 16/09/2019
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Suellen Nobrega tem 34 anos, é mãe de dois filhos, fotógrafa de surf. Nascida e criada na periferia de Guarulhos, grande São Paulo, ela tem uma história que destoa da grande maioria das profissionais do segmento.

Atualmente, a paulista é uma das mais reconhecidas fotógrafas do mercado, mas para chegar onde está enfrentou todos as dificuldades de uma jovem mulher de classe média baixa do Brasil.

Radicada em Maresias, suas palavras são pura inspiração e é ela quem fecha a Minas Ao Mar, série de entrevistas da Almasurf que veio para apresentar os trabalhos das fotógrafas mulheres de surf e contar um pouco das suas histórias.

Como e quando o surf passou a fazer parte da sua vida?

Foi engraçado. Eu morava em Guarulhos, bairro periférico, e não tinha muito acesso ao estilo de vida dos surfistas. Quando eu tinha uns 15 anos, alguns amigos começaram a surfar. Eu já gostava muito do oceano e mesmo morando longe sempre tive uma ligação com o mar. Um dia acabei indo no bate-volta com eles e fiquei apaixonada. No meu aniversário de 16 anos, ganhei uma prancha de presente da minha mãe e consegui uma companheira de surf. Sabe, eu tive uma adolescência muito complicada, de periferia, me envolvi com coisas ruins. No fundo, esse lance de surf era bem fora da minha realidade, mas essa conexão com a natureza, com o esporte, me apresentou outro estilo de vida. O surf salvou minha vida.

E a paixão pela fotografia?

Minha mãe gostava muito de fotografar e desde pequena a fotografia fez parte da minha vida. Sempre sonhava em ter uma máquina fotográfica e todo ano pedia uma de presente. A gente não tinha muita condição, mas minha mãe trabalhava muito e conseguia me dar alguns presentes. Não tive muita presença de pai e mãe, sabe? Fui criada pela comunidade. Mas pelo fato dela trabalhar, consegui ganhar uma câmera. Meu passatempo preferido era fazer foto e ser fotografada. Sempre fui muito ligada à arte. Minhas brincadeiras eram essas. Como minha realidade era muito diferente, eu via a foto como uma paixão mesmo, nunca pensei em ser profissional. Isso é muito louco. Eu gosto de falar que a gente tem que seguir nosso coração e muitas vezes na infância os sinais já mostram quem pretendemos ser na vida. No fim, eu fui estudar outras coisas, só que não parava em nenhum curso. Eu queria mesmo era trabalhar com arte e não sabia como. Então fui trabalhar em um projeto social, com crianças em vulnerabilidade. Acabou ficando muito pesado psicologicamente e decidi partir para terapia com animais. Nessa época, eu engravidei do meu segundo filho e como trabalhava com cavalos, eles começaram a me estranhar em função dos hormônios. Então me convidaram para fotografar os cavalos e eu topei. Até que um dia uma amiga me chamou para fotografar sua irmã, que estava grávida. Eu fiz o job, ficou lindo e as pessoas começaram a me procurar para outros trabalhos parecidos. Foi aí que a fotografia passou de uma diversão para um trabalho. Comecei a estudar sozinha, ganhei work shops de grandes fotógrafos e aprendi algumas técnicas.

A fotografia de surf foi uma consequência, né?

Na verdade, a paixão pela fotografia de surf começou junto com a paixão pelo surf. Eu comprava as revistas e ficava pensando: Cara, como faz essa foto? Será que é possível trabalhar com foto de surf? Aí, durante um trabalho de fotografia conheci uma menina que estava saindo de um projeto de surf feminino, indo para a Austrália. Ela comentou que o pessoal iria precisar de uma fotógrafa com meu perfil e me apresentou para as meninas da Longarina. Logo na minha primeira trip eu falei: É isso! Vou unir todas as coisas que fazem meu coração pulsar: fotografia, surf, trabalho ligado às mulheres, ao feminino. No fundo, me vejo inserida profundamente nessa realidade de ser mulher, ser mãe. Pensei: vou investir tudo nisso. Foi tudo muito incrível e quando vi já estava dentro do negócio. Foi mágico na verdade.

Qual foi o maior perrengue que vc já passou na água?

Sempre tive muito respeito pelo mar. Quando era mais nova, me jogava em mar maior, tinha menos medo. Depois passei a respeitar cada vez mais a natureza. Surfando foram dois: um na Prainha Branca, no Guarujá, e outro em Maresias. Fotografando foi num trabalho com a Nicole Pacelli. Maresias, mesmo quando não está tão grande, é sinistro. Tomei uns caldos, perdi o pé de pato e tive que nadar contra a corrente, com a câmera na mão.

E o mar mais memorável, qual foi?

Um foi surfando, há muitos anos, aqui na Juréia de São Sebastião. Mar perfeito, liso, clássico para o longboard. Pôr-do-sol de filme, aquela coisa. O outro, fotografando, foi na minha primeira trip internacional. Fui para a Costa Rica trabalhar, chegamos no pico, estavam rolando boas ondas. Era um sonho fazer uma trip internacional e lá o sol se põe no mar, é maravilhoso. Colocar o meu olhar naquela paisagem foi muito emocionante. Eu chorei bastante, fiquei muito emocionada. Além de ter sido a primeira vez que efetivei um trabalho de fotografia aquática na vida.

O surf é um ambiente tradiciolnamente machista...  

Sim, é extremamente machista, e essa é uma das coisas que dificultam meu trabalho. Foi mais fácil para mim pois entrei pelo surf feminino, onde tive menos resistência. Mas no mar já tive muita resistência e preconceito escancarado, de ouvir coisas terríveis e mesmo assim continuar, porque sei que esse é meu caminho. Se fosse, ou se estivesse, um pouco mais vulnerável na época, poderia ter desistido por coisas que já ouvi. Já sofri e ainda sofro esse preconceito. Ainda tenho muito para conquistar, principalmente o respeito dos profissionais da área. Morar em Maresias faz parte desse projeto de ganhar respeito da comunidade do surf. A maternidade também traz um preconceito, e não só dos homens, mas da sociedade em geral. Ser mãe solteira, de dois meninos, e fotógrafa aquática, não é muito comum. Mas aprendi a conviver. Essas são minhas escolhas. No fundo, estou focada em trabalhar, em desenvolver a fotografia. Meus filhos me apoiam, eles curtem meu lifestyle, a gente é muito feliz. Eu sou muito feliz com minhas escolhas. Estou aqui pra representar as mulheres mães, quebrar os preconceitos, mostrar que somos capazes de qualquer coisa que desejamos.

E como você avalia o crescimento do número de mulheres fotógrafas de surf?

A avaliação é muito positiva. Quando comecei, há cinco anos, fiz a formação com o Sebá (Sebastian Rojas), conheci a Ana Catarina, a (Mariana) Picolli e elas são minhas referências. Hoje em dia, vejo outras fotógrafas quebrando e acho que a gente tem que representar mesmo. Dizer: você pode, não importa! E o que eu quero é ser uma dessas pessoas, quero incentivar a fotografia de surf com as mulheres. Estou inclusive escrevendo um projeto para meninas adolescentes da minha comunidade. Minha intenção é formar uma oficina de audiovisual e ensinar essa nova geração a fotografar. Pretendo transformar isso num documentário, resgatar a cultura caiçara a partir do ponto de vista das meninas. Enfim, acho que é só o começo. Acredito que outras mulheres podem descobrir seus dons e saírem em busca dos seus sonhos. Estou e sempre estarei de braços abertos para incentivar.

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