Programa para Reservas de Surf chega ao Brasil

Evento na capital carioca reuniu surfistas e especialistas em governança ambiental e debateu os primeiros passos da iniciativa no País

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Na semana em que foi comemorado o Dia Mundial dos Oceanos (8/6), surfistas brasileiros e amantes do esporte começaram a debater na cidade do Rio de Janeiro a construção do Programa Brasileiro de Reservas de Surf (PBRS).

Através de workshops, a iniciativa vai percorrer neste semestre a costa brasileira de norte a sul colhendo contribuições. O encontro da região sudeste reuniu cerca de 35 convidados no Observatório do Museu do Amanhã.

Entre os presentes estavam o bicampeão mundial de Stand Up Padle na categoria SUP Wave, Caio Vaz, o presidente do Comitê Gestor da 9a Reserva Mundial de Surf da Guarda do Embaú-SC, Marco Aurélio Gurgel (Kito), as Campeãs Mundiais de Bodysurf, Marie Claude e Isabelle de Loys, pesquisadores das áreas do gerenciamento costeiro, geografia, biologia e oceanografia, jornalistas, representantes de ONGs e fundos de financiamento, empresários e líderes comunitários.

O Programa Brasileiro de Reservas de Surf (PBRS) é uma iniciativa dos institutos Aprender e Ecosurf e para esta primeira etapa contou com o apoio do Instituto Linha D’água e da Fundação SOS Mata Atlântica.

Durante os dois dias de workshop, os participantes conheceram o documento base: “O Estado da arte sobre as Reservas de Surf: Uma visão escalar, do global à proposta de um programa nacional”, e aprofundaram conhecimentos sobre o tema, além de tirar dúvidas junto aos consultores da pesquisa.

Entre as principais temáticas apresentadas nas palestras estavam: A criação do conceito Reservas de Surf, Reservas Mundiais de Surf - funcionamento e gestão, Governança baseada em ecossistemas e a proposta do Programa Brasileiro de Reservas de Surf.

Para o coordenador do grupo de trabalho de elaboração do programa, o advogado e diretor do Instituto Aprender, Mauro Figueiredo, a proposta que está sendo construída pode contribuir efetivamente para a gestão da costa brasileira.

“Estamos iniciando o processo de escuta social para construir com os diversos públicos de interesse uma proposta sólida para o Plano, colocando a sociedade civil e os surfistas como protagonistas da conservação e uso sustentável da zona costeira”, comenta Mauro.

Um dos pontos principais que está sendo objeto de estudos do time de consultores do PBRS diz respeito à seleção de critérios para o reconhecimento de Reservas de Surf na costa brasileira.

“A importância de pesquisas e atividades relacionadas a geomorfologia costeira, uso e ocupação do solo, políticas públicas e serviços ecossistêmicos, que assegurem o estabelecimento de critérios e parâmetros para as reservas, de modo a gerar um programa equânime e de acordo com as especificidades do litoral”, destaca o pesquisador do Laboratório de Gestão Costeira Integrada da Universidade Federal de Santa Catarina, Francisco Veiga Lima. 

Ondas Protegidas na Guarda do Embaú

A Praia da Guarda do Embaú foi declarada em 2016 como a 9a Reserva Mundial de Surf e primeira no Brasil, juntando-se ao seleto grupo de 11 praias pelo mundo. São elas:  Punta Borinquen – Porto Rico (2018), Noosa – AUS (2017), Guarda do Embaú – Brasil (2016), Gold Coast – AUS (2015), Punta de Lobos – Chile (2013), Bahía de Todos Santos – México (2013), Huanchaco – Peru (2013), Santa Cruz – EUA (2011), Ericeira – Portugal (2011), Manly Beach – AUS (2010), Malibu – EUA (2009).

De acordo com Marco Aurélio Gurgel (Kito) a experiência da Guarda enquanto reserva de surf pode inspirar outras praias do País.

“Como todo processo novo, recente, a criação de reservas trará vários desafios para as comunidades que estarão envolvidas no processo de constituição. O trabalho exigirá compromisso e união dos moradores, comerciantes, poder público local, além de uma ampla compreensão da importância dos ambientes naturais de entorno para a conservação e qualidade das ondas”, avalia Gurgel.

Um dos aspectos importantes evidenciados durante o workshop foi a necessidade da criação de um amplo programa de comunicação para informar a sociedade sobre os objetivos do programa e como os interessados poderão participar e candidatar praias ao longo dos mais de oito mil quilômetros de costa.

Maíra Pabst, editora de Boardsports da Red Bull, destaca que a grande importância da criação do programa é estabelecer critérios e metas claras afim de comunicar bem a sociedade.

“Com um bom trabalho de comunicação será possível gerar o engajamento social dos mais diversos setores para a aplicação de novas reservas ou aumentar a participação de novos públicos da gestão das reservas já existentes, como é o caso da Praia da Guarda do Embaú”, afirma Pabst.

Construção do Programa

Estão previstos neste ano ainda mais dois workshops. Um deve receber convidados das regiões norte e nordeste e outro na região sul. As datas serão informadas a partir do mês de agosto.
Um dos esforços que o time de articulação de elaboração do programa está promovendo é o de aproximar parceiros do setor privado e terceiro setor para que conheçam a proposta de trabalho e apoiem a iniciativa.

Para Marcia Hirota, diretora-executiva da Fundação SOS Mata Atlântica, existe uma ampla oportunidade para o programa de Reservas de Surf ter sucesso no Brasil.

“Temos um amplo compromisso com a zona costeira brasileira e desde 2006 iniciamos o programa Costa Atlântica, que entre seus objetivos está a conservação do patrimônio natural e cultural das zonas costeiras e marinhas do país. O programa atua numa série de frentes estratégicas para o fortalecimento da gestão integrada dos ecossistemas, promovendo a inclusão da sociedade civil organizada e de parceiros locais” explica Hirota.

Entre os resultados do primeiro encontro estão a criação de um Grupo de Trabalho que vai captar recursos para a realização dos próximos workshops e estruturar a elaboração do Fundo Brasileiro de Reservas de Surf, que terá como foco a  implementação do programa, criação da secretaria executiva e ações de diálogos e formação de uma rede de Reservas Nacionais de Surf que envolva as comunidades pelo litoral.

“Um dos pontos fundamentais para a construção do programa é a participação das comunidades locais. Para nós do Instituto Linha D’água é importante que ele seja construído a partir de um intenso diálogo com os atores locais. No caso das praias do litoral brasileiro, nós temos comunidades compostas por pescadores, empreendedores locais, escolas e associações de surf. A ideia é que seja valorizada a pluralidade de atores, diversidade de pessoas, que devem trazer suas contribuições para esse processo e suas intenções para a formulação do programa”, aponta Henrique Callori Kefalas, Coordenador Executivo.

Acompanhe o trabalho do Programa Brasileiro de Reservas de Surf