Fotografia na veia

Quinta personagem da série Minas Ao Mar, Marianna Piccoli conta sua trajetória e celebra o crescimento no número de fotógrafas aquáticas no surf

por Lucas Conejero, 09/06/2019
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Marianna Piccoli nasceu em Curitiba, mas cresceu nas praias de Florianópolis, uma das principais “surf cities” do mundo, e com apenas 31 anos é considerada pela galera como uma das pioneiras da fotografia feminina de surf no Brasil.

Formada em fotografia, a jovem apaixonou-se pelo esporte aos 16, durante uma temporada de estudos na Austrália. Radicada em Bali, Indonésia, há cerca de dois anos, a manezinha-curitibana bateu um papo com a equipe da Almasurf e contou sua trajetória na profissão

Quinta personagem da série Minas Ao Mar, Marianna celebra o crescimento no número de fotógrafas aquáticas no surf e celebra a união da mulherada nos últimos anos. “Estamos conquistando nosso lugar e na fotografia de surf não seria diferente”, avalia Piccoli.

AS Como e quando surgiu sua paixão pela fotografia? Estudou ou é autodidata?

MP Desde de criança sempre tive um fascínio pela fotografia, que na época era analógica. Mas ela surgiu de fato na minha vida exatamente na época que morei pela primeira vez fora. Eu carregava sempre comigo uma câmera digital compacta e bem simples. Com ela, registrava tudo desse novo mundo que eu estava descobrindo. No início era bem auto-ditada. Pesquisava, pegava dicas com outros fotógrafos, mas a verdade é que eu apostava muito mais no olhar do que na técnica. Até porque na época eu não tinha nenhuma. Vários anos depois, após seis anos fotografando profissionalmente, eu iniciei a faculdade de fotografia em Florianópolis na qual sou formada. Foi ai que evolui não só a técnica, mas lapidei a minha linguagem fotográfica, principalmente em outras áreas além do surf.

AS E o surf, como passou a fazer parte da sua vida?

MP Apesar de crescer em Floripa, o surf entrou de vez na minha vida quando fui estudar na Austrália aos 16 anos. Além de morar do lado da praia, eu tinha aulas de surf na escola. No mesmo ano, eu já sonhava em conhecer a Indonésia. Então arrumei meu primeiro emprego, juntei dinheiro, esperei as férias escolares e embarquei pela primeira vez para Bali. Isso me aproximou ainda mais do surf e consequentemente da fotografia também.

AS Então o marco da sua carreira foi essa trip para a Indonésia?

MP Comecei a me aprofundar mais na fotografia após essa primeira viagem a Indonésia e o surf já era o foco principal das minhas lentes. Foi lá que pude ver de perto e fotografar amadoramente o primeiro mar realmente clássico que presenciei, em Padang. O ano era 2004, a região de Uluwatu, apesar de já sentir os efeitos do turismo, ainda era bem diferente de hoje em dia. Praias bem mais preservadas, poucas pousadas, ruas de terra, nada de trânsito e apenas surfistas. Essa viagem mudou muito minha percepção das coisas, meus valores e fez nascer a vontade de transformar a fotografia de surf em profissão. Eu queria viver esse estilo de vida e trabalhar com algo que me possibilitasse realizar tudo isso. No ano seguinte, retornei ao Brasil e decidida a seguir esse caminho comprei meu primeiro equipamento amador e comecei a fotografar o surf. Um ano depois, em 2006,  embarquei para minha primeira temporada havaiana e foi depois de lá que comecei a trabalhar profissionalmente. Dois anos depois, comprei minha primeira caixa estanque e iniciei na fotografia aquática.

AS Qual foi o maior perrengue que você já passou na água?

MP Sempre tive muito respeito pelo mar. Algumas vezes foi só cautelosa, outras senti muito medo mesmo. Nunca passei nenhum "perregue" sério, mas alguns momentos que marcaram. Minha viagem a Puerto Escondido, no México, foi um deles. Foram poucos dias que consegui realmente entrar no mar e fotografar. O dia que entrei no mar com a lente "fisheye" foi um dos meus maiores desafios. Outro momento em que quase me dei muito mal, foi minha primeira e única tentativa de fotografar no Grower, a sessão mais pesada de Desert Point. O mar estava pequeno e constante. Apesar de observar muito antes de entrar, dei azar. Ao começar a remar para o pico, entrou a maior série do dia. Nadei muito, passei no limite e escapei sem tomar na cabeça. Depois do perrengue fiquei só observando e nem consegui fotografar, mas valeu pela experiência.

AS E o melhor mar ou o mais “memorável”, qual foi?

MP Difícil escolher um dia mais "memorável", mas acredito que tenha sido em Super Suck, na ilha de Sumbawa, também na Indonésia. Esta é uma das minhas ondas favoritas e um dos lugares em que me sinto mais à vontade. Em 2014, passei um mês por lá e peguei uma sequência de vários swells, com um dia realmente muito bom que ficou na memória. Também guardo com muito carinho um dos dias eu que fotografei em Honkeys, na minha recente viagem a Maldivas, junto ao projeto no qual sou produtora e fotógrafa, o Girls Surfing Experience, da surfista Suelen Naraísa. Nesse dia, após o crowd sair da água, as condições de surf melhoraram muito. Só o nosso grupo de mulheres permaneceu no point, ondas perfeitas, agua cristalina e uma energia difícil de descrever. Um daqueles momentos que você agradece pela profissão que escolheu.
 
AS O surf é um ambiente tradicionalmente machista. Foi mais difícil conquistar seu espaço?

MP
Quando iniciei meu trabalhos com surf, principalmente no meio editorial, foi um pouco mais difícil. O mercado ainda era praticamente dominado por homens. Mas ao mesmo tempo que havia olhares desconfiados, também havia muito incentivo. Na real, nunca chegou a me atrapalhar. Pelo contrário, tive muito apoio de outros fotógrafos e colegas de profissão.

MP Como você avalia o crescimento do número de mulheres no segmento da fotografia de surf, principalmente dentro da água?

AS Acho esse crescimento das mulheres fotógrafas, principalmente dentro da água, muito positivo. Estamos num momento em que as mulheres estão bem mais unidas e presentes, dentro da água e fora dela também. Estamos conquistando nosso lugar e na fotografia dentro aquática não seria diferente! 

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