Andrea Moller bate o recorde mundial de surf na remada

Paulista radicada no Hawaii, big rider faturou premiação inédita no oscar das ondas gigantes e garantiu seu espaço no Guinness World Records

por Lucas Conejero, 07/05/2019
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A big rider brasileira Andrea Moller foi o principal destaque da cerimônia do Big Wave Awards que rolou na última quinta-feira (2/5) no BeachLife Festival, em Redondo Beach, Califórnia (EUA).

Além de faturar o Paddle Award Feminino, prêmio oferecido para a maior onda surfada na remada, a atleta conquistou seu lugar no Guinness World Records como a mulher que surfou “no braço” a maior onda da história da modalidade.

O feito aconteceu em Jaws, Maui, Hawaii, no dia 16 de janeiro de 2016. A bomba foi estimada em cerca de 15 metros. “Por ter sido instituído agora pela World Surf League, o primeiro prêmio não obedeceu ao período desta edição do WSL Big Wave Awards, referente a 2018 e 2019, mas sim em toda a história”, explicou a assessoria de imprensa da WSL.

Agora, a paulista de Ilhabela radicada no Hawaii faz companhia para Maya Gabeira e garante a hegemonia do big surf feminino brasileiro no livro dos recordes. No ano passado, Maya garantiu o prêmio com uma morra em Nazaré, Portugal. Vale lembrar que o Brasil também detém o recorde masculino de surf rebocado, que é do paulista Rodrigo Koxa.

Na tarde da última segunda-feira (6/5), Moller atendeu a equipe da Almasurf pelo telefone. Durante o bate papo, contou sobre sua vida de paramédica-surfista-mãe-de-família no arquipélago havaiano, lembrou detalhes do dia do recorde e de como superou o preconceito para ter o respeito da surfistada nos dias grandes em Jaws.

AS Conte um pouco sobre a sessão do recorde. Pelas imagens, dá para ver que estava clássico…

AM Olha, não foi só a maior onda que eu já surfei no pico. Foi também o maior e o mais clássico mar que eu vi em Jaws. Sempre que vai ficar grande bom, encontro meus parceiros Yuri Soledad, Bruno Lemos e Fred Pompemeyer logo cedo e partimos para a sessão na primeira hora, quando as condições, geralmente, são melhores. Nesse dia estava grande, muito grande, e pesado. Mas o vento estava fraco, o que é raro por aqui. Lembro de ver várias ondas da série quebrando sozinhas, perfeitas, e ninguém conseguia dropar. Aos poucos a galera começou a pegar as ondas e então encontrei a minha. Foi um dia marcante para a galera do big surf de remada. Um dia que estendeu os limites do todos que estavam na água. Foi espetacular. Um daqueles dias que a gente volta para casa com um enorme sorriso no roso, feliz da vida, sabe?

AS Sabemos bem como é (risos). E a preparação para o big surf? Vinte anos de Maui devem ajudar bastante…

AM Nasci na capital de São Paulo e me mudei para a Ilhabela ainda criança. Meu pai era um velejador fanático e cresci com essa cultura. Competia de wind quando criança e vim para Maui atrás dos ventos constantes. Claro que já pegava minhas ondinhas em Castelhanos e tal, mas meu lance era windsurf. Foi ali que começou minha preparação. Hoje em dia, sou competidora de canoagem e SUP, além de treinar Jiu-Jitsu constantemente. Busco manter a forma para chegar preparada no inverno, quando o foco é surfar o maior número de dias possíveis.

AS Você não “vive de surf”, certo?

AM Estou longe de viver de surf. Sou uma paramédica que gosta de surfar. Trabalho em período integral na ambulância, sou casada e tenho uma filha. Vida de mãe: escola, trabalho e coisa e tal. Mas nunca deixei de ser quem eu sou por dentro. Muitas mães param em função da família. A diferença é que por aqui o estilo de vida das ilhas me dá a chance de viver esses dois mundos ao mesmo tempo.

AS E toda essa exposição com o prêmio? A entrada no Guinnes, a estreia da categoria no Big Wave Awards…

AM Olha, quando estou num mar grande, meu lance é manter o foco. Não estou lá para aparecer na foto ou quebrar recordes. Estou lá porque meu coração quer estar no mar, surfando o dia inteiro. É um lance de alma, corpo e coração. Honestamente, sempre achei que aquela onda fosse uma das maiores já surfadas por uma mulher. Só que nunca fui uma pessoa de falar sobre meus feitos, se deveria ganhar ou não esse ou aquele prêmio. O que eu cobrava era a presença das meninas no campeonato. Minha luta sempre foi pelo surf feminino. Esse prêmio é uma conquista de todas as mulheres do surf. Mostra que a luta valeu a pena.

AS Por falar nisso, o surf é um ambiente tradicionalmente machista, principalmente o big surf, cheio de egos inflados….

AM Realmente, é uma galera muito machista. Quando comecei a cair em Jaws em 2004 éramos apenas eu e a Maria, mulher do Laird Hamilton, que encarávamos as morras. Só que ninguém queria rebocar a gente. Pelo contrário, eles rabeavam a gente, queriam que a gente se machucasse. Aquele lance: tá vendo, vocês não conseguem. Persistimos na cultura do respeite para ser respeitado e conquistamos nosso espaço do jeito mais difícil. Sempre fui para a água de roupa de borracha, como uma atleta de alta performance, não de “biquininho” para sair em revista ou site. Então chegou uma hora que não teve mais jeito, rompemos a barreira do preconceito. No fim, esse lance de preconceito me motivou bastante a ser quem eu sou atualmente e fico feliz em ter aberto as portas do big surf para as meninas.