O homem das mandalas de areia

Inspirado em padrões da natureza e reflexões espirituais, João Vianna viaja com suas mandalas na plataforma da Almasurf

por Redação Almasurf, 11/03/2019
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Fotógrafo, artista e surfista, João Vianna completou 44 anos no último mês. Nascido no Rio de Janeiro, cresceu na praia e teve suas experiências mais ricas de infância na Ilha de Itacurucá, costa verde do Rio, onde passava férias.

À época, a região era remota e não havia nem mesmo energia elétrica. Por lá, conviveu com os nativos caiçaras, que além de pescadores e agricultores também cuidavam das casas de veraneio.

Uma das atividades dos caiçaras era “limpar” a praia e os rastelos chamavam a atenção do garoto. “Eu via beleza na simplicidade de suas vidas e naquilo que faziam no seu dia-a-dia na praia. Essa cultura toda marcou minha infância”, conta João.

Sua relação com o mar começou ali. Pescava de vara, fazia pesca sub, surfava em pranchas rebocadas por barquinhos, subia a serra pelas picadas da Mata Atlântica. Sentia-se à vontade com os pés descalços no chão da floresta.

“Sempre tive bastante sensibilidade na contemplação dos movimentos da natureza: ciclos da lua, marés, ventos, no comportamento dos animais. Acho que também fui influenciado por ter um irmão mais velho e biólogo”, avalia o artista, que cresceu no ápice do bodyboard no Brasil.

“Só fui ficar em pé numa prancha muitos anos depois, mas não me considero surfista. Sou um amante do mar que curte mergulhar, andar de SUP, pegar onda deitado, em pé, viajar pelo mundo onde há belas paisagens marinhas”, revela João.

O amor pelo mar foi tão grande que entre 2004 e 2007 ele decidiu largar tudo e ir morar em Fernando de Noronha. Era o começo de sua carreira como fotógrafo. O tempo no arquipélago rendeu dois livros e fortaleceu sua paixão pela profissão.

“Saindo de lá passei um ano viajando pelo País com o projeto Águas do Brasil e descobri o lugar onde vivo atualmente. Piracanga me acolheu. Um lugar para amantes da natureza com muita espiritualidade, onde estou há 10 anos. Minha pegada sempre foi ligada à natureza, seja no cuidado e regeneração dela através de projetos de reflorestamento, gestão eficiente de resíduos e educação ambiental. Trabalho com avistamento de baleias no inverno. E tudo isso com a fotografia como ferramenta de trabalho”, continua o artista.

Mandalas de Areia

João sempre quis fazer algo diferente, mais artístico e quando surgiu o drone viu a possibilidade de novos ângulos. Interessado pelas fotos aéreas, descobriu através do Instagram desenhos feitos na praia por alguns artistas. “Lembrei do rastelo da infância e comecei a desenhar mandalas na areia”, relembra Vianna.

Sua referência é a tradição tibetana dos monastérios, onde os monges, em experiências meditativas, fazem as mandalas de areia, que são super detalhadas e consideradas sagradas. Quando ficam prontas, são desmanchadas e jogadas no rio, ensinando que na vida tudo é efêmero e que devemos cultivar o desapego. 

“Gosto de estar ao ar livre e usar os elementos naturais para compor este trabalho, além de trabalhar com seus ciclos. Para desenhar preciso estar alinhado com a maré. Os desenhos acontecem na maré baixa coincidindo com o horário de nascer ou pôr do sol. Preciso ter uma luz incidindo lateralmente no desenho, o que vai dar um contraste maior sobre a textura da areia. Não dá pra fazer no meio do dia e tenho somente alguns dias do mês para trabalhar”, explica.

Como os desenhos causam um impacto na paisagem e os gestos para desenhar chamam atenção, sempre aparecem curiosos e João gosta bastante dessa interação com o público.

“Sinto essa expressão artística como algo genuíno, que tem a ver com meu estilo de vida. Acordo cedo, gosto de estar em contato com a natureza, de cuidar dos ambientes naturais. Gostaria que minha arte pudesse ser usada para sensibilizar às pessoas para a beleza do mundo natural. Meus desenhos são inspirados em padrões da natureza mesclados com reflexões espirituais. Tenho oferecido também oficinas e minha idéia é trazer pessoas na praia para movimentarem o corpo e praticarem uma meditação ativa. Uma possibilidade de integração com o corpo, a mente, a natureza e o cuidado com ela”, finaliza.

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